domingo, 25 de outubro de 2015

O PERFEITO DO IMPERFEITIO

Deixo aqui mais uma arte do meu livro.

Quando ficou a conhecer a maioria dos residentes, pensou na sorte que tinha, simplesmente porque estava consciente e, apesar de tudo, podia mexer o seu corpo. Enquanto uns, esperavam na cama inativos, sem saberem o quê, nem porquê outros falavam ou olhavam sem sentido. Outros aguardavam nas suas cadeiras de rodas um pouco de atenção ou respeito e outros ainda corriam pelos corredores. Era o jogo do tudo ou nada, o jogo da vida.
Enquanto uns tinham a sorte de ter a saúde física, outros tinham apenas a mente saudável, mas infelizmente só isso… lucidez na mente.
Embora fosse o lar mais adaptado para Francisca, apesar de tudo sentia-se desajustada, pois não se enquadrava naquele lugar, assim dizia a sua voz interior. Talvez fosse essa a verdadeira razão, porque havia situações muito diferentes, desde personalidades diferentes à falta de saúde física. Mas Francisca sabia que tinha que aceitar esse facto, do qual nunca poderia fugir.
Além de ser uma casa bastante espaçosa, com enormes corredores e grandes salas de estar, era talvez a única com a oportunidade de trabalhar, algo deveras ambicionado por ela.
Francisca precisava estar ocupada, não queria continuar inativa, desejava muito usufruir do que pudesse tirar partido, sendo útil para todos os que precisassem. Ansiava compartilhar os momentos de


alegria, os momentos felizes, aqueles que a saúde lhe pudesse trazer, ainda. Estava consciente que ajudar era sempre o melhor remédio, mas por vezes tamm precisava de ser ajudada. Sim, precisava de saber porque estava ali, mas, principalmente saber porque é que Deus, ou fosse o que fosse, autorizava tais injustiças.


Os dias passavam, mas para Francisca eles corriam a cada dia um pouco mais devagar. Ocupava os tempos livres, que eram muitos, como bem entendesse. Ora ajudava ou era ajudada, ora ensinava ou aprendia, não faltava o que fazer, para quem quisesse. Era esse o seu principal objetivo, o de estar, constantemente, ocupada, aprendendo algo de novo.  Havia  sempre  alguma coisa  a  aprender  ou  a ensinar, a questão era querer! Tudo isto com uma única finalidade: a de manter a sua mente sempre distraída.
Não queria ter tempo para nada, principalmente para pensar. O que muitas vezes era demasiado doloroso, mas também obrigatório. Pois a reflexão faz parte do recheio do dia a dia. E é óptimo refletir sobre o que se passou, ajuda-nos bastante a compreender o presente e a valorizar melhor o futuro.
No entanto, via-se também na obrigação de admitir que o passado não muda. Feliz ou infelizmente, somos nós que temos de mudar, ao sabor do tempo. Em muitos aspetos e, por maior que fosse a vontade de mudar, tudo continuava exatamente na mesma. Francisca não sabia se havia de discordar ou concordar com esta real contradição, porque achava inclusivamente que era verdadeira.
Havia momentos, em que Francisca se isolava de tudo, ela precisava disso, pois sentia-se triste,


dececionada, com a vida e com todos. De vez em quando, e sempre que isso acontecia, ela implorava à  paz  para  vir  ter  consigo.  Assim  saboreava a calma e refugiava-se do ar pesadíssimo que existia constantemente em seu redor,  onde era raro poder encontrar o silêncio.
Por  vezes,    pensamento  viajava,    ela deixava-o ir, sentia-se feliz quando o acompanhava
de  boa  vontade no  regresso ao  passado, ou  ao futuro imaginado. Pensava em tudo o que mudaria se pudesse e se fosse exatamente agora, mas o passado continuava lá, distante e perdidamente inalterável. Talvez não mudasse nada, se calhar passaria por tudo, outra vez. Ou melhor, mudaria sim, apagaria o episódio que a fez mergulhar no abismo, onde se encontrava presentemente. Dizia-
se também que afundava nele continuamente, mas rápido mudava de opinião. Pois de nada adiantava imaginar o que poderia ter mudado, se tudo já se tinha passado e nada podia fazer para voltar atrás.
De nada se arrependia, reviveria tudo outra vez e passaria por tudo, novamente! A verdadeira escola da vida era essa. Valorizar as coisas boas.  Viveu momentos muito felizes, outros menos, mas mesmo os que a fizeram sofrer lhe ensinaram a compreender melhor os azares que o destino oferece. Sim chorou, riu e saboreou um pouco de cada emoção. Provou e avaliou os rios gostos e sensações. Mas principalmente aprendeu que em qualquer obstáculo existe sempre uma servidão para cativar a vida. Simplesmente porque a vida é a única e verdadeira escola. E quem não conseguir entender isso, pouco  tem a ganhar.
 Às vezes questionava-se: - Como saber, se esta vida é uma carta selada? Como aproveitar tudo o que está certo e


nos afastarmos do que esta errado? E como prever se fizemos a escolha certa? Como saber que explorámos o verdadeiro caminho, ou seguimos na direção correcta? Será que a possibilidade de um dia alcançar a felicidade existe?...
 Para Francisca, a verdadeira resposta a todas estas questões estava no coração de cada um, nos sentimentos e, inclusivamente nas suas ações, boas ou menos boas.

Francisca sentia-se uma autêntica aprendiz da vida. Interrogava-se rias vezes, sobre a pouca sorte que lhe batera à porta e tentava conformar-se em aceitá-la. Ela queria acreditar no que dizia a si própria e assim tentava enganar-se, ao confiar plenamentna  sua  intuição  que  lhe  dizia que agora era mais feliz… Poderia ter sido pior, Deus sabe o que faz obrigava-se ela a pensar.


domingo, 11 de outubro de 2015

O PERFEITO DO IMPERFEITO

DEIXO AQUI MAIS UMA PARTE DO MEU LIVRO, PARA QUEM ESTIVER INTERESSADO DEIXO O LINK... https://www.chiadoeditora.com/livraria/o-perfeito-do-imperfeito


CAPÍTULO SETE IMPACTO PROFUNDO




Estávamos no ano de mil-novecentos e noventa e três, numa quinta-feira, no dia quatro de fevereiro. Era uma tarde fria, embora ensolarada. Francisca, acompanhada pelos seus familiares, entrou pela primeira vez na enorme vivenda lindamente situada. Fora da civilização, e ao de dois montes, que se apresentavam cobertos de erva fresca, onde animais pastavam alegremente. Assim que entrou os grandes portões verdes reparou em como era enorme aquele espaço. Apreciava os pássaros que brincavam e cantarolavam ao apanharem banhos de sol, no relvado. Era um lindo e espaçoso jardim, bem cuidado,  onde  nasciam  os  rios  tipos  de flores, pois estávamos justamente na época do seu florescimento. Enquanto os jarros e lírios branquinhos mostravam a fragilidade nas talas maravilhosas, os malmequeres, as roseiras e as hortênsias mostravam os seus filhotes. Alguns já permaneciam em botões querendo espreitar para fora e assim acordarem com o calor dos primeiros, raios de sol. A relva também se mostrava bem aparada, algo que aparentava exigir um certo cuidado.
Logo que entrou os portões, viu um rapaz de aspeto esquisito,  baixo e  gorducho,  que  os observava e se dirigiu a eles assim que estacionaram.
Cumprimentou-os   todos   com   u forte abraço e um agradável sorrisoComo se os conhecesse já uma eternidade e fossem


íntimos. Mostrou-se bem-educado e amável fazendo-os sentir bem-vindos a sua casa.
- Olá, olá, está boa? Disse ele bastante sorridente e cumprimentando-os a todos, às mulheres com um beijo e um abraço, aos homens com um aperto de mão.. deixava transparecer muito bem a felicidade à flor da pele. Tudo isto e unicamente por serem pessoas desconhecidas, pessoas alheias… ele queria fazer mais amizades e diferentes das que estava habituado a conviver e, que conhecia bem demais
Só mais tarde, é  que  Francisca  ficou  a conhecer a realidade. O rapaz, com pouco cabelo e já quase branco era, simplesmente, uma criança no corpo de um homem que possuía uma doença denominada mongolismo. Era a primeira vez que Francisca ouvia e via uma pessoa assim, mas não seria a única com certeza.


Depois de entrarem na enorme vivenda, a pessoa responsável pelo acolhimento de Francisca convidou-os a conhecer o principal da casa. O conteúdo não era nada agravel aos olhos de quem o contemplava pela primeira vez. Esse facto era obrigatoriamente aceitável, embora indesejável, pensava ela.
Francisca vinha conhecer a sua futura casa, onde (in) felizmente permaneceria, nas próximas temporadas, ou talvez para sempre. Sim, porque foi opção dela, unicamente dela, e estava consciente da sua escolha. Conheceu e ficou a habitá-la, no mesmo dia. Porque Francisca vinha preparada para a sua estadia prolongada. Quanto ao seu primeiro impacto foi bastante doloroso, pois ela tinha bem presente, o pesadíssimo fardo que a aguardava, quanto ao outro fardo… esse estava


hospedado em toda a sua intimidade. Sabia o principal aquela casa seria a dela e por um tempo indefinido. Tempo esse que era bem dispensado por ela, mas também, com toda a certeza, pelas pessoas que ali permaneciam...
Sentiu-se bem acolhida pela maioria dos utentes que aí residiam, pois eles também ficaram radiantes por acolherem uma nova spede, alguém novo para conhecer e dividir  experiências. Era nova em todos os sentidos da palavra! Aquele seria assim mais um dia vivido naquele lugar, naquela casa tão desigual, um dia diferente de todos os outros, mas, no fundo, tão igual a tantos outros que se seguiriam.
Depois  de  Francisca  se  despedir  dos  entes mais queridos, ficou a olhar o vazio, numa casa enorme e no meio de tanta gente, mas ao mesmo
tempo tão sozinha. Tinha a cabeça cheia de dúvidas e pensamentos. Olhava e sorria com algum receio para as poucas ajudantes de lar, as que ficaria entretanto a conhecer melhor.
Depois de arrumar, com alguma ajuda, as suas coisas e roupas no pequeno armário, que apesar de ser pequeno, era suficiente para quem possuía o necessário, colocou o  ursinho azul em  cima  da
Cama. Aquele urso ocupava  um  grande  lugar  no  seu coração. Deixou-se empurrar, na cadeira de rodas, para conhecer o resto da casa. A pessoa que a acompanhava era uma residente, que se prontificara imediatamente em mostrar-lhe o que faltava. Depressa a amizade nasceu entre elas.
Teresa, como ela se chamava, desabafava com Francisca sobre os azares e alegrias da vida e queixava-se, tamm, das poucas vezes que as primas, a sua única família, a visitavam. Teresa tinha uma ligeira deficiência mental e física… era essa a razão da sua presença ali. Conversava bem,


embora não soubesse manter uma conversa de pé e coerente por muito tempo. Infelizmente, a maioria dos residentes era assim, cada um com as suas limitações. Cada caso continha a sua diferença, embora parecida, no fundo, cada pessoa permanecia ali, por alguma razão