terça-feira, 1 de agosto de 2017

O PERFEITO DO IMPERFEITO II A outra face


    Faço aqui um apelo, a todos os meus amigos e amigos dos meus amigos. Eu preciso muito de vender livros e assim conseguir o próximo lançamento, pois só com a vossa ajuda conseguirei concretizar.A todos os que estiverem interessados em adquirir um livro com o meu autografo, basta enviar-me a vossa direção, em MI,obrigados.Entretanto fica mais uma parte.


    - Hum… mas que “borracho”, quem será esta vitamina para os olhos? Será o novo vizinho? Não, não pode ser. E se for, de certeza que vem aí mulher… acho que não iam deixar andar por aí sozinho um pão como este! Podiam comê-lo… e depois? - Perguntava-se ela, enquanto sorria para si mesma, e respondia ao continuar com o comentário, em pensamentos.

Ele era alto, cabelo escuro, liso e bem curtinho. O que mais lhe chamou a atenção, para além do olhar lindo e meigo do qual não conseguia determinar a cor devido à distância que os separava, foi a maneira de vestir: um elegante fato e uma gravata azul-escura e camisa azul-clara.
  Depois de o contemplar melhor, por mais alguns breves segundos, dirigiu-lhe um olhar e um sorriso e entrou novamente na casa azul, onde continuou a falar consigo própria.
- Seria para mim aquele lindo sorriso? Não acredito, ele não me conseguia ver dali! Deve pertencer à empresa de mudanças… ou será ele o chefe? E se fosse...? Que maravilha receber assim um belo sorriso do homem de azul, da casa azul. Deve ser alguém que tem algum cargo importante! - Dizia-se ela, suspirando, quando ao mesmo tempo, desviou o olhar e tentou concentrar-se num poema de amor. O seu pensamento continuava a voar… talvez o que acabara de presenciar fosse o impossível…
Depois de fechar o livro, fechou também os olhos e recostou-se por breves minutos, enquanto esperava pela irmã. Quando os voltou a abrir, depois de ter passado pelas brasas, já não ouviu mais nenhum barulho. Olhou para o outro lado da rua, só para satisfazer a curiosidade. Como não viu mais a carrinha, nem nenhuma das pessoas que tinha visto junto à casa, concordou com o que tinha pensado. Talvez fosse alguém de visita, ou mesmo alguém que tinha feito uma pausa no trabalho.
        Então, abriu de novo o livro numa página ao acaso, pois desejava ter a mente ocupada. Quando leu um pequeno texto sobre o engano e a paixão, o seu pensamento disparou na direção de Miguel… e todas as questões se reavivaram na sua memória!
        Será que fazia sentido Miguel sentir-se plenamente confiante, em relação aos sentimentos que despertava? Frederica questionava-se várias vezes, sobre esse facto. Será que era essa a razão de ele se deixar acomodar a esse sentimento? Só podia ser… muito provavelmente estava a aproveitar-se daquela paixão tão pura e agradável.
        Frederica decidiu pô-lo à prova e fez com que sentisse a sua falta. Percebera o interesse que o seu corpo despertava em Miguel e sentia-se bastante humilhada e até usada. Não encontrava a coragem necessária para recusar cada carícia, cada beijo apaixonado e cada palavra romântica.
        Amava a pessoa errada, ela sabia-o, mas não encontrava coragem para resistir ao seu encanto. Frederica gostava de sentir-se desejada e compreendida, mas queria que ele gostasse dala como ela era, não pelo que poderia ser, ou pelo que ele queria que ela fosse.
        As saudades que Frederica sentia de Miguel, eram imensas e entravam com força na memória e no coração. Tinha medo de vir a ser rejeitada por ele, e centrava toda a culpa na sua maldita doença. Vivia atormentada com essa realidade!
       Recorda-se das primeiras vezes que se entregou ao prazer, de corpo e alma. Nas tardes suavemente calmas, em meados de Outono, quando as videiras, quase nuas, refletiam o seu esplendor. Deixava-se levar pelas carícias repletas de doçura e prazer que ele lhe proporcionava e entrava num mundo de sonho. Os seus olhos negros que brilhavam de desejo chamavam-na em silêncio e ela deixava-se levar, para um universo encantador. Nesses primeiros encontros, tudo era maravilhoso e desfrutavam ao máximo dessa pura paixão. No princípio, ambos decidiram guardar segredo de comum acordo, mas depois, com o passar do tempo, sem o sentir com vontade de assumir a relação, sentia-se usada e injustiçada. Tudo era como Miguel queria e quando queria, e isso não era justo.

       Quando Frederica decidiu ir passar uns meses com a sua irmã e o marido, na grande cidade, foi com a esperança de que esse afastamento resultasse em algo positivo. Assim, podia ajudar Júlia nas tarefas caseiras e não só. Ela já se sentia demasiado cansada e tinha a certeza que a distância seria a solução ideal, para eles, pois a saudade era um ótimo remédio, para muitas coisas, principalmente para os sentimentos. Decidiu ficar ali, pelo menos até a criança nascer, e assim juntava o útil ao agradável.
      Miguel não soube cuidar do amor que Frederica lhe oferecia. Precisava de se sentir amada, estava consciente disso e necessitava de algo mais semelhante ao amor que ela lhe oferecia.
       Frederica ia fazer novos conhecimentos e encontrar novas amizades, viver outras aventuras e descobrir outras maneiras de pensar. Ia conhecer outra forma de ver a vida, talvez melhor.
Quando acordou do sonho, dirigiu-se imediatamente para o caminho do abismo, que se vislumbrava cada vez mais complicado. Foi precisamente quando começou a desfrutar da vida que começou o seu pesadelo, o seu tormento que era bem pesado.
        De vez em quando, vinha-lhe à ideia, a hipótese de nunca ter nascido, ou então o de poder morrer de repente. Algo que tornaria tudo muito mais fácil para si própria.
        Mas não tinha coragem suficiente para pôr um ponto final na linha da sua própria vida. Pensava constantemente que se o seu destino era aquele, alguma razão teria de haver para ela se defrontar com uma cruz assim. Sacudiu a cabeça, mandando embora esse pensamento, preferia não pensar em nada, se nada podia fazer.

       Frederica recordava também, com imensas saudades, a sua grande amiga Laura. Pensava nas brincadeiras da sua adolescência, passada lado a lado, quando ainda moravam na aldeia. Lembrou-se de uma vez, quando tinha dez anos, e acabara de completar alguns exercícios dados pela única professora da terra – Teresa. Para além de ser uma professora bastante simpática, bonita e jovem, era também muito amiga, o que não era muito comum naquela época. Sabia manter o respeito, e mostrava ser digna de recebê-lo, apesar de diversas vezes se sentir obrigada a dar algumas reguadas nos alunos mais distraídos ou preguiçosos. Era algo muito comum nesses tempos, pois a régua representava a lei e a ordem e a lei mantinha o respeito.
         Um dia, chegou à escola um novo colega, oriundo de terras Africanas. Um retornado, bonito. Depois de se apresentar, João Manuel, como ele se chamava, escolheu sentar-se na carteira ao lado de Frederica, que se sentiu tímida e nervosa a sua presença. O seu coração saltitou, as pernas tremeram e as cores rosadas a invadiram-lhe o rosto. Foi a primeira vez que se sentiu assim.
        JM, como lhe passaram a chamar, sabia escrever o seu nome e pouco mais. A professora tentava reavivar o pouco adormecido na sua memória, para que pudesse recuperar nos estudos. Ela tinha consciência das dificuldades passadas por aquelas crianças, ausentadas por tempo suficiente para esquecer o então aprendido e para aprender o que queriam esquecer.
         Frederica não queria admitir perante ela própria, o seu interesse por aquela pessoa, a primeira que lhe abrira uma janela desconhecida no seu coração. Quando JM necessitava de alguma ajuda, ela estava sempre disponível e apoiava-o no que mais necessitasse.
        Frederica era uma das crianças mais inteligentes da classe e orgulhava-se desse facto. Muitas vezes sentia a vaidade e o orgulho a apoderarem-se dela e, pouco a pouco, achava-se com a coragem suficiente para atrair a atenção e conquistar o coração do seu querido JM.
        Como recompensa, ela via crescer lentamente o fruto daquela linda paixão, que era secretamente correspondida. A sensação do poder amar e ser amada era ótima, mas a de amar pela primeira vez era ainda maior.
       No recreio, JM gostava muito de jogar futebol com os colegas. Não era o único, mas era apenas ele que chutava a bola propositadamente para junto de Frederica, apenas para sentir o seu olhar contemplar carinhosamente todos os movimentos do seu corpo. Mas aquele amor platónico não durou muito, pois, passados alguns meses, JM teve que se mudar para o Porto, terra de origem de seu pai.


       Nos meses que foram passando, e afastado de Frederica, Miguel sentiu saudades. Afinal, ela era a pessoa que nunca o rejeitava, aquela pessoa que sempre o amara, apoiara e desculpara incondicionalmente. Sentia a falta de alguém que lhe desse a certeza de ser amado e só a encontrava na pessoa de Frederica.
        Miguel entendeu-o, percebeu exatamente o que ela lhe tentara transmitir e arrependeu-se de ter agido friamente com quem não merecia. Percebeu inclusivamente que o amor existe e que por vezes só damos conta dele quando parte. Miguel sentiu que estava a perdê-la e teve saudades da pessoa que nunca o rejeitara e do corpo que estava sempre disposto a acolhê-lo. Queria novamente essa Frederica, aquela que sempre lhe estendia os braços em qualquer circunstância.
         Miguel declarou o seu amor a Frederica pela segunda vez, e disse-lhe o quanto a amava e a desejava de volta. Ela aceitou-o, mas apenas porque desejava que ele sentisse o mesmo que ela a fizera sentir e, principalmente, porque ela já estava resignada àquele abandono do passado, que a marcara bastante. Sabia que a sua doença lhe furtava sempre os momentos de maior beleza, por isso, roubar-lhe-ia assim os seus momentos de maior felicidade.
      Frederica aceitou-o, e disse-lho por mensagem de correio eletrónico. Embora eles se falassem várias vezes ao telefone, ela preferiu escrever, pois conseguia exprimir-se melhor. Disse-lhe que a esperasse, porque iria regressar por uns dias, para estar com a restante família. Mas também lhe disse que não esperaria nada mais, nem dele nem de ninguém. Só queria estar com ele para partilhar alguns momentos de amor e de puro prazer, pois era simplesmente o que a vida lhe reservaria.

       O final da tarde chegou. Frederica levantou-se quando ouviu o motor de um carro bem conhecido, que estacionara ali perto. Era a irmã Júlia que acabara de abrir a porta dianteira, do carro, acompanhada do seu cunhado, que também saíra do carro. Reparou que alguns vestígios de lágrimas marcavam o seu lindo rosto. Depois de trancar a viatura abraçou a amada e entraram em casa.

terça-feira, 25 de julho de 2017

O PERFEITO DO IMPEDRFEITO





Como prometido aqui fica mais uma parte do meu livro

                          Pensamento voador

       As férias de Verão regressaram e Frederica aceitou ir, mais uma vez para casa da sua irmã Júlia. Para assim aliviar um pouco a sua mãe e o seu pensamento. A sua irmã estava grávida de quase cinco meses e assim juntava o útil ao agradável.
Uma tarde, ao regressar da habitual consulta de planeamento familiar, Júlia entrou em casa com o rosto banhado numa completa tristeza, as lágrimas brotavam-lhe dos olhos. Ao vê-la assim, com a infelicidade bem visível no rosto, Frederica abordou-a, receando passar-se alguma coisa com o bebé.
- Que se passa? O bebé está bem?
- Sim, ele esta ótimo, por enquanto… - Disse ela com uma voz duvidosa.
- Então, o que se passa? Se dizes por enquanto, algo aconteceu… o que foi? – Insistiu.
- O médico! - Disse Júlia, entre soluços. Depois, puxou uma cadeira e, com algum custo, sentou-se. Primeiro olhou para a irmã que estava perplexa e expectante.
- Ele encontrou-me alguma coisa, eu vi no olhar dele, eu notei algo de anormal!
Frederica sem saber o que pensar, não disse nada e continuou a ouvi-la.
- Eu insisti e pedi-lhe para ele me dizer alguma coisa mais, eu precisava saber, mas ele só me disse para ter calma. Achas que eu poderia ter calma? - Indignada, continuou o seu relatório.
- Eu imagino o que possa ser e tenho tanto medo… só de pensar nisso fico desesperada. Mandou-me ir lá novamente amanhã, acompanhada pelo meu marido - o Zé - para conversarmos melhor.
Júlia tentou sorrir, mas o seu rosto continuava murcho, tal e qual um dia nublado, onde o sol queria espreitar, mas as nuvens escuras sobressaiam.
- Não vai ser nada, tu vais ver! Os enganos acontecem, não fiques assim! - Disse-lhe Frederica, tentando acalmá-la, quando nem ela própria estava tranquila.
- Pois… falar é tão fácil. Tenho medo sim!
  Júlia, depois de olhar para a sua irmã e com lágrimas nos olhos, ficou mais pensativa e continuou:
- Sim acho que sei! Por isso tenho andado a fazer tantos exames! Confirmou ela.
- Tem calma por agora, sim? Amanhã logo saberás o resultado! - Respondeu Frederica, disfarçando o receio de qua a irmã estivesse certa.
- Que remédio! - Afirmou ela, respirando fundo.

O quarto de Frederica estava silencioso e banhado pela luz do luar, que entrava pela janela adentro e o iluminava, completamente. A noite estava quente e calma e ela olhava, ora para o vazio repleto de luar, ora para a lua que o oferecia à noite. De janela aberta, ela implorava a si mesma um sinal, como se alguém a ouvisse. Talvez o luar trouxesse algo de mágico e a aconselhasse em silêncio:
- Oh, não, não pode ser, Meu Deus, faz com que isto não passe de um engano! Não deixes que a mesma tragédia nos aconteça, logo às duas!
Frederica murmurava no silêncio da noite, ora orava ora implorava com os olhos cheios de lágrimas… mas a quem?... Talvez à calmaria da noite, talvez nela existisse alguém que a ouvisse. Permaneceu assim uns longos minutos, até que o sono a levou para um mundo melhor, ilusório e maravilhoso.  
Foi um sonho lindo, mas pequenino, pois dormiu pouco. Sonhou que passeava num jardim fascinante, com um bebé recém-nascido, nos braços. Frederica pensava que só poderia ser o bebé da irmã, como um sinal positivo do futuro que se aproximava.
No dia seguinte, logo pela manhã, Frederica e Júlia conversaram e Júlia contou-lhe a conversa que tivera com o marido, José. Apesar de tudo, ele fazia questão em acompanhá-la.
- Mas ele não foi trabalhar?
- Foi sim, mas só de manhã. Vem almoçar a casa e fica… para ir comigo!
- Ah, assim é melhor! - Comentou Frederica com um breve sorriso de satisfação.
- Pois… mas sabes que ele já tinha conversado com o médico sobre isso?
- Ai é? Não me digas! Então ele já sabia e não te dizia nada? - Perguntou Frederica admirada.
- Sim e não… ele sabia mas não pensou que pudesse ser algo tão grave. Já desconfiava do problema que se adivinha… Aliás eu também sei e imagino que tu também. Por essa razão tenho tanto medo! Será que esta maldita doença, nunca mais tem fim? - Perguntou ela, com os olhos cheios de lágrimas a quererem saltar.
E perguntava a quem? A ninguém especial ou a quem soubesse a resposta… mas não havia quem pudesse responder.
- Sim é verdade, depois de mim, quem atingirá mais? Acho que já chega!
- Achas, dizes bem! Eu também acho, mas não somos nós quem deve achar! Somos obrigados a aceitar o que o que nos está destinado.
- Infelizmente é mesmo assim!
Acabando de proferir essas palavras, olharam uma para a outra, pois os pensamentos delas complementavam-se. De seguida Júlia olhou para o tapete do chão com desenhos coloridos e endireitou-o com o pé, dizendo:
- Amanhã tenho que por este tapete a lavar na máquina, espero que não debote, são cores tão vivas, mas está mesmo a precisar!
Assim, mudaram de assunto e acabaram de descascar as batatas, para prepararem a maravilhosa caldeirada, para o saboroso almoço.

Depois de terem acabado de degustar a apetitosa refeição, Frederica levantou a mesa e lavou a loiça usada. Depois de ter arrumado a cozinha e enquanto preparava calmamente um café, sentou-se à mesa para o beber. A sua irmã e cunhado tinham acabado de sair, deixando Frederica a sós com seus pensamentos.
Ainda baloiçavam no ar as palavras duvidosas de Júlia em relação ao bebé
- O Doutor Ribas, sabe muito bem o quanto eu evitava engravidar, justamente por essa mesma razão, a que me deixa tão receosa. Mas aconteceu, pronto, agora não vou interromper esta gravidez, pois sou contra o aborto!
- Eu sei, deixa lá que eu penso igual a ti, e depois será o que Deus quiser, não achas? Será o bebé mais amado do planeta! - Comentou José, sorrindo de tão orgulhoso, enquanto acariciava a barriga da mulher, da qual o volume já era bem visível.
- Sim, será o nosso príncipe! De nada adianta falarmos deste assunto! Vamos é ouvir o que o senhor doutor tem para nos dizer!
- Sim, tem que ser!
Passados poucos segundos, Frederica abanou a cabeça, como se quisesse mandar embora os maus pensamentos. Não era nada agradável pensar na futura tragédia, aquela que seria inevitável não pensar. Uma tragédia que chegara, como sempre, sem avisar.
Levantou-se devagar e saiu a porta de casa, a mesma que dava acesso à cozinha. O pequeno jardim que enfeitava a entrada continuava ressequido, pois era o que esse tempo provocava. Frederica escolheu o lado mais escondido, onde a sombra já aparecia, e sentou-se.
Sentiu-se um pouco cansada e com uma tontura que, rapidamente aliviou. Isto só a fez pensar que seria por causa do calor, pois o tempo continuava abafado e quente, sem uma única brisa a passear, uma típica tarde de finais de julho.
 Sentada na confortável cadeira de baloiço, a única que ali se encontrava e acolhia quem a procurasse, Frederica respirou fundo e levantou o olhar, quando viu alguns belos, cachos de uva espreitando por baixo da latada que ali existia. Abriu um livro de poesia que trazia na mão e tentou fixar-se num poema de amor.
Depois de tentar abstrair-se nalgumas belas frases mais românticas, não conseguiu. O seu pensamento viajava e levava consigo o seu coração, ou melhor, os seus mais puros sentimentos. Aqueles que arrastavam as boas lembranças da pessoa amada e do dia em que se entregara a ele de corpo e alma. Pensava nos momentos de puro romantismo quando se amavam, no meio das vinhas. Esses tinham sido os dias mais apaixonados e românticos que vivera até então.

Deu asas a algumas recordações que passeavam na sua memória e concentrou-se nos dias que viriam dali para a frente. Aqueles que seriam muito piores e mais amargos. Temia o seu futuro daqui em diante e o de Júlia, confusa e amedrontada.
          Frederica sentia muito receio pelo seu amanhã, embora evitasse pensar nisso, o que era cada vez mais difícil. Não existia cura para aquela doença esquisita, que já estava impregnada nela e ia progredindo, pouco a pouco. Recorda-se, como se fosse hoje, do discurso do médico que a seguia:
        - Trata-se de uma doença rara e, infelizmente, ela afeta algumas famílias! - Dissera-lhe ele, calmamente, com o olhar muito sério e preso numa fotografia que estava à sua frente, em cima da secretária. Tratava-se da fotografia de uma criança, que devia ser sua filha e teria cerca de dois anos. Era dona de um sorriso encantador.
      - Como assim? - Perguntou Frederica.
      - É uma doença genética e hereditária, quer dizer que está nos genes de cada familiar e que a mesma que pode ser ou não transmitida de geração em geração.
     - Não posso acreditar, mas… para além de ter sido só agora detetada, não conheço nem me lembro, sequer, de ninguém na minha família com algo igual ou parecido!
       O médico olhou para a mãe de Frederica e com uma expressão, mais séria, continuou...
       - Pois… mas o problema, pode vir também da família do seu marido! Como irmãos, tios, primos, ou mesmo avós dele, ou até dos seus antepassados!  Esta ou outras doenças parecidas podem ser hereditárias, até à sétima geração.
       - Sim, compreendo. - Respondeu dona Augusta. Depois de suspirar e respirar fundo, levantou o olhar, com uma expressão de deceção e tristeza.
        - Devo desde já informá-la que se trata de uma doença neuro degenerativa que vai evoluindo, ou seja, piorando, muito lentamente. Vai precisar de ter muita calma e muita força, para conseguir acompanhá-la. Sei que vai ser difícil superar todas estas etapas, mas vai ter que lidar com isso. – Dissera o médico ao olhar para Frederica e para a mãe dela, que tinham os olhos banhados em lágrimas.
        - Parece que estou no meio de um pesadelo, sem saber a origem… - Lamentava-se, dona Augusta, a mãe de Frederica.
        - Tenham calma, sim? Sabem que a ciência tem vindo a progredir imenso nesse aspeto… por essa mesma razão, é importante que mantenham a fé e a esperança.
       Quando Frederica lhe dirigiu novamente um olhar de súplica, ele afirmou-lhe:
        - Poderá existir uma solução, sim! Vamos fazer todos os possíveis, para que isso não seja em vão e vamos aguardando com paciência, sim? - Acabando de proferir estas palavras, ele olhou-a com um ar de quem coloca uma questão que quer ver respondida de forma afirmativa. O mesmo rosto, que estivera cheio de preocupação, sorriu-lhe com mais confiança!
        Frederica recordava-se, perfeitamente, das palavras que lhe tinham sido dirigidas, alguns meses antes. Mas ela continuava com bastante receio de que mais alguém daquela família viesse a ouvir aquelas frases, novamente.
        - Mas que rica herança nos deixaram os nossos antepassados… realmente… com certeza que desconheciam este problema! - Afirmava ela, com as lágrimas a quererem inundar os olhos, que permaneciam fechados.
        - Porquê eu, meu Deus? Será que mereço isto? Por que motivo me dás este castigo? – Perguntava-se tantas vezes, talvez ao acaso ou ao vazio, mas nunca obtinha resposta. Abriu os olhos e olhou em frente, para o outro lado da rua, quando um barulho lhe chamou a atenção.
        Reparou que uma carrinha amarelada tinha acabado de estacionar em frente a uma vivenda desabitada. Depois de olhar uma segunda vez, com mais atenção, ela reparou melhor, e viu que se tratava de uma carrinha de mudanças.
- Deve pertencer a alguém que mora por aqui, ou nesta rua. - Pensou.
Viu dois homens vestidos com fatos-macaco em tons de castanho que acabavam de sair da vivenda azul e se dirigiram para a carrinha. Abriram as portas da parte de trás, da bagageira, o que lhe despertara a curiosidade. Reparou mais atentamente, quando viu que eles transportavam alguns móveis para dentro da casa.
- Mais um novo vizinho, ou velho… - Pensou ela, rindo-se sozinha. Quando de repente, Frederica viu um homem, muito charmoso e elegante, que parou na entrada. Logo o seu interesse despertou.
- Hum… mas que “borracho”, quem será esta vitamina para os olhos? Será o novo vizinho? Não, não pode ser. E se for, de certeza que vem aí mulher… acho que não iam deixar andar por aí sozinho um pão como este! Podiam comê-lo… e depois? - Perguntava-se ela, enquanto sorria para si mesma, e respondia ao continuar com o comentário, em pensamentos.
Ele era alto, cabelo escuro, liso e bem curtinho. O que mais lhe chamou a atenção, para além do olhar lindo e meigo do qual não conseguia determinar a cor devido à distância que os separava, foi a maneira de vestir: um elegante fato e uma gravata azul-escura e camisa azul-clara.
  Depois de o contemplar melhor, por mais alguns breves segundos, dirigiu-lhe um olhar e um sorriso e entrou novamente na casa azul, onde continuou a falar consigo própria.
- Seria para mim aquele lindo sorriso? Não acredito, ele não me conseguia ver dali! Deve pertencer à empresa de mudanças… ou será ele o chefe? E se fosse...? Que maravilha receber assim um belo sorriso do homem de azul, da casa azul. Deve ser alguém que tem algum cargo importante! - Dizia-se ela, suspirando, quando ao mesmo tempo, desviou o olhar e tentou concentrar-se num poema de amor. O seu pensamento continuava a voar… talvez o que acabara de presenciar fosse o impossível…
Depois de fechar o livro, fechou também os olhos e recostou-se por breves minutos, enquanto esperava pela irmã. Quando os voltou a abrir, depois de ter passado pelas brasas, já não ouviu mais nenhum barulho. Olhou para o outro lado da rua, só para satisfazer a curiosidade. Como não viu mais a carrinha, nem nenhuma das pessoas que tinha visto junto à casa, concordou com o que tinha pensado. Talvez fosse alguém de visita, ou mesmo alguém que tinha feito uma pausa no trabalho.
      

domingo, 23 de julho de 2017

O PERFEITO DO IMPERFEITO

MEUS AMIGOS AQUI DEIXO MAIS UMA PARTE BEM APETITOSA DO MEU LIVRO...
CASO ESTEJAM INTERESSADOS EM ADQUIRIR-LO COM A MINHA ASSINATURA DIGAM-ME QUE EU ENVIO.
https://www.chiadoeditora.com/livraria/o-perfeito-do-imperfeito-vol-ii-a-outra-face

quinta-feira, 20 de julho de 2017

POEMA MEU

DEIXO AQUI DOIS POEMAS DA MINHA AUTORIA, QUE PROVÊEM DESTE MEU LIVRO
  https://www.chiadoeditora.com/livraria/nas-asas-da-poesia

VEM...


Vem… vou falar-te baixinho
Quero ouvir a tua voz em mim
Onde o silêncio da noite
Nos chama com voz de cetim…

Vem… vou beber os teus gestos
Mastigar a tua voz lentamente
Sentir o teu perfume no ar
Com tudo o que a gente sente

Vem… vou fazer-te sentir
A força do meu sentimento
Passear-te a pele com os dedos
E contar-te os meus segredos

Vem… vou ser o que queres
Fazer todas as tuas loucuras
Vezes e vezes sem fim
Para ter dentro de mim
A certeza que não procuras
Outro amor, outras mulheres…


Fredy 2013




VAI...


Vai… sei que ficarás sem norte
E espero que encontres a sorte
Que nos deixou esperar em vão
E quase nos destruiu o coração

Vai… eu não estarei mais aqui
Quando te lembrares de mim
E decidires que sou p’ra ti
Como uma esperança sem fim!

Vai… mas nunca te esqueças
Que eu fui e sou somente tua
E mantenho as mil promessas
Que fizemos à noite sob lua!

Vai… acabaram-se as loucuras
Vê se encontras o que procuras
Na busca dos teus prazeres
Nos corpos de outras iguais
Mas sem nunca te esqueceres
Que um dia te amei demais...




Fredy 2013



sexta-feira, 14 de julho de 2017

O PERFEITO DO IMPERFEITO

Meus amigos, aqui deixo mais uma  parte do meu livro, espero que gostem...

Frederica e Miguel, após ficarem sozinhos, olharam-se e sorriram, mais descontraidamente, invadidos de paixão e carinho. Frederica quebrou o silêncio e disse:
- Vamos ver quem encontra o próximo cacho de uvas…
- Sou eu, claro! - Disse  Miguel, rindo-se para as videiras, do outro lado.  
- Querias! - Disse-lhe Frederica, retribuindo-lhe o sorriso e, ao mesmo tempo, olhando também para o mesmo lado onde espreitava um belo cacho.
Frederica, quando acelerou o passo para ser a primeira a alcançá-lo… tropeçou na terra seca e quase caiu nos braços de Miguel.
Abraçados e a olharem-se tão próximos, a paixão começou a incendiá-los e deixaram-na seguir. Os seus lábios aproximarem-se e beijarem-se, suavemente.
- Como adoro esse teu sabor! - Murmurou ele, sentando-se com ela no chão, em cima de algumas folhas, quase secas, mas continuando a explorar-lhe a boca.
- Oh claro, este sabor doce, o sabor a uvas, não é? Pois tenho comido bastantes! - Respondeu ela com um ar bem brincalhão.
- Pois sim, esse também é bom, mas prefiro de uma outra maneira! - Comentou Miguel ao retribuir-lhe o sorriso.
Esticando o braço, ele apanhou dois apetitosos bagos de uva de um cacho que estava mesmo ao seu lado. Pousou-lhe um nos lábios e trincou o outro, dizendo:
- Prefiro assim, isto faz uma mistura ótima, ora prova, não queres? - Perguntou ele, sem lhe dar a oportunidade de responder. Apenas a de aceitar os seus lábios molhados, sua boca, e depois a sua língua, enquanto a sua mão lhe acariciava a pele nua da cocha.
Frederica sentia-se maravilhosamente bem nesses instantes apaixonados… eram momentos que ficariam para toda a vida, pela inocência que e doçura de que se revestiam.
Frederica sentiu a mão dele a acariciá-la lentamente e deixava-a seguir o seu caminho pela anca acima ate aos seios já rijos pelo seu toque. Ao mesmo tempo deliciava-se com as carícias e o contacto do seu corpo todo. O delicioso gosto do prazer provocava-lhe arrepios que ela já não conseguia descrever. Frederica encantava-se com a sensação dos seus corpos seminus tateando um no outro… E queriam mais…
- Oh, desejo-te tanto! - Sussurrava Miguel, entre beijos e deitando-se sobre ela.
Frederica tentou responder, mas só os gemidos se ouviam, pois seus corpos falavam em silêncio. Só o desejo e o prazer cresciam, pouco a pouco, nesse espaço. Miguel deixava esses sentimentos invadi-los.

O sol já estava a desaparecer, a terra a ficar gelada e húmida. Frederica, depois de abotoar a blusa de xadrez, olhou para o relógio que trazia no pulso e disse:
- Já...? Como o tempo voa quando estamos bem! Tenho que ir, faz-se tarde e a minha mãe já deve estar preocupada.
- Sim, eu também vou! - Disse Miguel ao levantar-se e compondo as calças.
A seguir esticou-lhe a mão para a ajudar a levantar-se e ela aproveitou para o abraçar pela cintura e lhe sussurrar ao ouvido:
- Foram momentos maravilhosos e únicos, só nossos, que recordarei para sempre, amo-te!
- Eu também te amo, hoje deste-te a mim pela primeira vez e adorei… Sentiste dor?
- Um pouco, mas é normal… foi a primeira vez! Depois sentimos a recompensa. - Respondeu ela, sorrindo e serrando-lhe ainda mais a cintura!
        - Ah, assim gosto mais! Foi a primeira vez, mas muitas mais virão ainda. - Disse ele, retribuindo-lhe o sorriso e beijando-a, novamente.
Caminharam muito abraçados enquanto dividiram promessas de amor eterno, como era típico daquelas idades. Quando chegaram perto da casa dela, ela afastou-se e disse-lhe:
- Bom, até amanhã então, eu vou primeiro, pode ser? Só para não desconfiarem!
Miguel olhou-a com um sorriso apaixonado e acenou-lhe com a cabeça.
- Até amanhã! - Respondeu ele, muito baixo e mandando-lhe um beijo silencioso.

Foram dias de puro romantismo, pois cada vez que se encontravam a sós, a paixão e o amor estavam presentes e era lindo. Podiam explorar os seus corpos e assim aperfeiçoarem o amor que os unia.
Mas Miguel, quando estava acompanhado, agia de forma diferente. Não lhe ligava e fazia como se não a conhecesse, sem lhe dar muita importância. Essa atitude magoava-a bastante e deixava-a triste. Fazia pensar ainda mais no seu problema de saúde, desencadeando-lhe sentimentos pessimistas e deixando-a mais insegura e fracassada.
 Frederica julgara que ele notara o seu problema de saúde… só podia ser isso, pois o seu desequilíbrio intimidava-a cada vez mais.
Quando completou os dezoito anos, foi uma vez mais surpreendida pela mesma traição, apesar da expectativa de que Miguel assumisse ou desse a conhecer o namoro perante os restantes familiares. Frederica enganou-se na espera de mais um momento magicamente feliz, mas apenas imaginado por ela.
Miguel encontrava sempre desculpas esfarrapadas e sem sentido. Mas Frederica desculpava-o, pois estava apaixonada, de uma tal forma que essa paixão a impedia de ter outros pensamentos ou sentimentos.
- Seria mesmo essa a razão? Só porque sentia vergonha dela? Não seria o amor, o principal? Ou porque estava receoso de assumir tal compromisso? - Interrogava-se Frederica, sempre com a mesma dúvida. Claro… só podia ser essa a razão, embora ele gostasse dela, não era o suficiente para o assumir perante os outros. Por vezes, Frederica acreditava que ainda eram jovens e teriam muito tempo para aprenderem a amar. Mas outras vezes sentia contrário: pensava que a justificação se encontrava no seu problema de saúde, refletido no seu andar. Se fosse essa a razão, ela sentia-se muito injustiçada perante a vida, o destino ou mesmo o amor.
 Frederica pressentia esse amor, ou talvez sentisse que seria ela quem nutria o amor suficiente para os dois. Mas não queria acreditar nessa realidade. Confusa, já não sabia o que pensar. Então, interrogava-se a si própria. Embora receosa, e com bastante medo, algo que nunca a largava, Frederica convencia-se a esperar com paciência, pois a altura certa havia de chegar.
- Se para tudo há um tempo, por que não esperar? Talvez antes de completar os dezanove anos, dizia-se ela…
Mas, nem aos vinte!...



domingo, 14 de maio de 2017

O perfeito do impeffeito

Caros amigos, como prometido,aqui deixo mais uma parte desta linda historia...

Nos dias seguintes, Frederica continuava com a cabeça cheia de dúvidas e receios. Por mais que se recusasse a aceitar aquele pensamento horroroso que a atormentava. Vivera esses dias cheia de medo de vir a herdar algo muito mau dos seus antepassados. Sentia que algo esquisito entrava, lentamente, pelo seu corpo. Desde criança que o receio e o horror nela habitavam. Mesmo assim, ela tentava não pensar demasiado naquilo, mas a insegurança crescia de dia para dia.
No final de mais um dia quente, algumas semanas após o casamento, estava uma tarde chuvosa e uma apetitosa tempestade de verão parecia bater à porta, exatamente como ela gostava de a receber. Antes de entrar em casa, e completamente encharcada, Frederica teve a maravilhosa visão do seu amor secreto que a ela se dirigia. Também ele estava molhado da chuva que continuava a cair.
- Olá… Tudo bem?
- Olá, tudo sim, e tu que fazes aqui? - Respondeu ela, um pouco tímida.
- Vi-te sozinha, a passear à chuva, tão bonita, com a roupa colada ao corpo. Apeteceu-me fazer-te uma surpresa… achas que fiz mal? - Perguntou-lhe, enquanto lhe sorria, timidamente e lhe limpava do rosto as gotas de chuva que escorregavam dos seus cabelos ensopados.
- Não! Que ideia! Eu é que não estava à espera de nada disto. - Respondeu-lhe envergonhada e tímida, com um estranho calor a subir-lhe pelo corpo acima.
- Gosto tanto de ti! És linda! - Disse-lhe ele, sorrindo-lhe e aproximando o seu rosto do dela. Os seus lábios entreabertos procuraram os de sua amada e, lentamente, a sua língua penetrou na sua boca acariciando-lhe os lábios, e explorando-lhe todos os recantos mais íntimos, querendo ir mais longe.
Frederica afastou o rosto, lentamente, e mostrando-lhe o ar satisfeito disse:
 - Bem… vou mudar de roupa que estou a ficar com frio e encharcada, embora a água esteja quente! Ainda apanho uma constipação… o que eu dispenso! - Respondeu ela baixinho, sorrindo e encolhendo os ombros.
Miguel aceitou a decisão, sorriu-lhe e, encolhendo os ombros, viu-a afastar-se.
Ao fechar a porta, encostou-se à mesma, respirou bem fundo e sorriu de encantamento e satisfação. A sua mãe, ao vê-la com aquele sorriso feliz, e aquele ar radiante, apesar de completamente encharcada, mostrou-se preocupada e perguntou-lhe o que se passava.
- Nada de mais… sinto-me bem por ter ido passear à chuva, é só isso! - Disse ela ao dirigir-se ao seu quarto. Sua mãe sorriu-lhe e, sem dizer mais nada, parecendo adivinhar o seu segredo, deixou-a seguir.
Deitada em cima da cama, Frederica fechou os olhos e sorrindo para si mesma reviveu a doçura do momento que acabara de viver. - Que romântico…! - Pensava ela embalada naquela magnífica lembrança, naquele momento apaixonado e inesquecível.
Fora o seu primeiro beijo de verdade, tão meigo, doce e cheio de paixão. Um presente maravilhoso. Ainda conseguia aprisionar o gosto dos lábios dele, misturado com a água morna da chuva de verão que ainda lhe acariciava o rosto. Era algo que ela adorava fazer… passear sob a chuva de verão, o que, aliado ao que acabara de lhe acontecer, não poderia ter melhor sabor.
Que privilégio! Como ela se sentia feliz e ansiava por aquele beijo, desde o primeiro dia que reparara nele. Recebeu-o somente naquela altura, no início das férias de verão, já depois de completar os seus dezassete anos.

Os meses de verão passaram, e o regresso às aulas voltou. Estava ansiosa de regressar a sua casa e à escola, pois aumentavam as oportunidades de ver a pessoa amada. As ocasiões de se falarem eram mínimas, e assim seriam bem melhores e mais fáceis.
Frederica acabara de passar dois meses em casa da sua irmã recém-casada, que ficava a uns bons quilómetros de distância, para a ajudar na arrumação da nova casa e assim também aliviava um pouco a sua mãe das responsabilidades e dos seus problemas de saúde.
A insegurança comandava-lhe o corpo, fosse em casa ou em qualquer outro lugar, e sempre que se encontrasse acompanhada. Por essa razão, ela evitava fazer algo que despertasse a atenção dos outros, em relação a si própria. Simplesmente para não ser obrigada a responder a algo que não desejava.
Evitava mostrar o que, pouco a pouco, seria inevitável. Frederica era a primeira a sentir-se envergonhada e diminuída com esse facto: o de não conseguir comandar os seus movimentos, algo que a deixava acanhada. Alguém podia reparar e rir-se dela, por curiosidade ou simples brincadeira.
         Sempre que Miguel via ou pressentia que Frederica estava sozinha, aproximava-se dela para a beijar, acariciar e falar-lhe de amor, coisa normal. Como faziam todos os jovens, apaixonados, nessas idades. Alguns amigos já sabiam do namorico, outros desconfiavam, e houve até quem lhe perguntasse, o porquê de ele não assumir tal compromisso. Frederica não sabia responder e sentia-se uma ingénua idiota, porque não encontrava coragem de resistir aos seus encantos, nem de aceitar o começo de uma complicada caminhada, que seria a sua pura realidade.

Logo a seguir às vindimas, algumas crianças gostavam de aproveitar o sol dos fins de tarde outonais. Depois das aulas, iam ao rebusco dos derradeiros cachos de uvas, aqueles que ficavam perdidos, ou escondidos nas folhagens de fim de época.
 Foi num desses fins de tarde, que Frederica e Miguel se encontraram, numa vinha, com mais alguns amigos.
- Olha quem esta ali! - Disse Laura, sua grande amiga de infância, que se tinha mudado para a vila, alguns meses antes dela.
- Sim, já vi… o meu amor, mas não está sozinho, olha só quem esta com ele!
- Oh, que bom, o Joaquim, repara como ele é lindo... -Comentou Laura, sem desviar os olhos dele e com um sorriso caloroso.
- Isso é mesmo paixão...! -Respondeu Frederica com um sorriso aberto, piscando-lhe o olho.
- Achas? Não digas isso, sempre o achei um gato, ou um pão, mas é só! - Respondeu Laura, sem desviar os olhos do seu admirador.
- Pois… está bem… faz de conta que acredito! Tem cuidado que esse pão não é de comer! - Disse Frederica com um sorriso rasgado, enquanto eles se aproximavam.
- Eles vêm aí, não digas isso… caluda, sim? - Disse Laura envergonhada.
- Olá, como vão as meninas, desde há bocado, na escola? - Perguntou Miguel, com um lindo sorriso dirigido a ambas, mas mais atentamente para a sua amada.
- Bem, como sempre! - Respondeu Laura retribuindo um sorriso divertido.  
Passado um minuto, sem ninguém comentar mais nada, apenas os olhares se entrelaçavam. Ao mesmo tempo, contemplavam as videiras, a ver qual deles avistava algum cacho de uvas. Laura foi a primeira a falar.
- Olhem! Ali há uns cachinhos… - e dirigiu-se para lá, também com o intuito de deixar os dois apaixonados sozinhos.
- Espera, eu vou contigo, posso? - Perguntou-lhe Joaquim, enquanto ela avança.

sábado, 13 de maio de 2017

o perfeito do imperfeito. Vol 2 A outra face

Caros amigos, deixo aqui a primeira parte do meu novo livro, que é o segundo volume da trilogia do perfeito do imperfeito, que será promissor.                                      CAPÍTULO UM
                        Adolescência ingrata

Frederica tinha completado dezassete anos de idade dias antes do casamento de sua irmã Júlia. Júlia era a mais velha de cinco irmãs, com um rapaz pelo meio. Entre cada um, havia a diferença de três anos. Ele era o homem da casa. Chamava-se Henrique, tinha vinte e três anos, e vinha logo a seguir a Júlia. Havia ainda a Alice e a Sandra e por fim, nascera Rita, a mais nova.
Depois do funeral de seu pai e de se mudarem para a vila, o casamento, que vinha sendo adiado já há quase dois anos, concretizara-se finalmente. Tudo se adiara porque Júlia se recusava a deixar a sua mãe, que era viúva, com duas filhas ainda menores, e ela própria tinha também graves problemas de saúde. Sofria de asma, todo o tipo de alergias, bronquite e, como se não chegassem estas complicações respiratórias, sofria ainda de problemas cardíacos que não a deixavam descansar por muito tempo.
No primeiro Sábado do mês de Junho o desejo de Júlia fora finalmente realizado. Essa manhã acordara repleta de beleza e de um sol radiante acompanhado de uma brisa que com ele se passeava. Aos poucos, o dia foi-se transformando noutro ainda mais radioso, num desejado calor agradável.
Frederica recorda, ainda hoje, todos esses momentos. Lembra-se, inclusivamente, de ter subido a uma cadeira para alcançar uma jarra antiga, de se ter desequilibrado e de quase ter deixado escorregar a bela jarra das mãos, o que só serviu para a deixar demasiado assustada a todos os níveis.
Fora uma sensação deveras esquisita, como se fosse empurrada por alguém invisível lhe tivesse dado um encontrão.
Sem saber como nem o quê, e nem sequer a origem do que acontecera com ela própria, tentou não dar demasiada importância a esse assunto e a não pensar mais nisso. Não queria vir a ser confrontada com perguntas alheias ou até inapropriadas.
Receava saber essa tal resposta que tanto a afligia, só de a imaginar. Além disso, era uma peça, extremamente bela e rara, deixada pelos seus antepassados, os seus avós paternos.
Dona Augusta, sua mãe, dera conta desse pequeno incidente. Mas não prestara muita atenção e tentou disfarçar. Apenas lhe perguntara se estava bem, ao que ela respondeu com um aceno de cabeça afirmativo.
Recorda-se também de a ter ajudado a enfeitar a mesa para o especialíssimo almoço. Nessa tal jarra, colocou algumas lindas rosas brancas e cor-de-rosa. Emanavam um perfume bem suave e agradável. Eram colhidas do seu próprio jardim e cuidadas pela sua mãe, o que fazia toda a diferença. Por essa mesma razão, faziam ótimos arranjos para ocasiões especiais como aquela.
Frederica olhou-se ao espelho, ao lado da sua irmã Rita. Com doze anos, Rita usava um vestido cor-de-rosa curto, com uma fita. No cabelo, solto pelo meio das costas, usava um laço da mesma cor.
Frederica estreava um vestido vermelho e branco, que fora oferecido pelo seu tio e padrinho de batismo. Calçou umas lindas sandálias vermelhas de pano, com tiras nas pernas, para condizer com a restante indumentária. Usava uma fita branca, que lhe apanhava o cabelo castanho claro num lindo rabo-de-cavalo. Os olhos delas eram do mesmo tom, com nuances de tonalidades diferentes, ora mais claras, ora mais escuras, mas sempre na cor castanha esverdeada. Sentiam que essa beleza natural não as largava, e saboreavam esses momentos, como se fossem únicos…
Estavam simplesmente lindas! – diziam uma para a outra, enquanto Frederica lançava um sorriso para o espelho, depois de se maquilhar ligeiramente e contornar os lábios com batom de brilho.
Depois de tudo pronto, e juntamente com a sua mãe e a sua irmã mais nova, dirigiram-se então para a capela, para assistir à cerimónia, junto dos restantes familiares e amigos mais íntimos. Quando saiu a porta de casa, depois de sua mãe e irmã, viu os olhares de alguns vizinhos que as observavam com admiração e carinho e isso deixava-as ainda mais vaidosas e confiantes.
Frederica olhou à sua volta durante todo o caminho que a levava à igreja, simplesmente na expectativa de avistar o seu amor secreto… mas em vão. A rua estava quase deserta, somente algumas crianças brincavam descontraidamente para entreter o tempo, até verem chegada a hora de reclamarem o que lhes era devido por tradição. Os noivos oferendavam alguns rebuçados às crianças e graúdos da vizinhança, e não só. Talvez num gesto de sorte ou bondade para bons agoiros dos tempos futuros.
O seu mais que tudo chamava-se Miguel e era um ano mais velho que ela. Tinha pele morena, cabelo liso e negro, que parecia seda e sobressaia lindamente na camisa branca que usava diversas vezes. Tinham-se conhecido na escola, alguns meses antes e, logo depois da mudança para a pequena vila, foi o primeiro amigo que Frederica conquistara, para além da Laura, sua grande amiga. 
Depois de se instalar, no seu lugar reservado, junto de sua mãe e irmãs, ela admirou a naturalidade que embelezava a capela. Estava decorada de forma muito simples, apenas algumas rosas cor-de-fogo e lírios brancos, que enfeitavam o altar e a sacristia. Por trás, na parede branca, estava exposta, a grande gravura de Jesus Cristo, o bom pastor, com um cordeirinho ao colo. Tudo estava lindo e transmitia beleza, paz e serenidade… é justamente nas coisas mais simples que a beleza se encontra.
Para além da decoração da capela, apreciava a noiva, a sua querida irmã, que estava radiante. Envergava um vestido branco, simples, com um véu em renda e um ramo composto por três camélias cor-de-rosa. O seu longo cabelo castanho estava apanhado com uma coroa de flores brancas, apenas com algumas madeixas, caídas sobre o pescoço.
A noiva dirigira-se lentamente para o altar, acompanhada pelo seu único irmão, ele que também estava radiante e emanava felicidade. Conduzira a sua querida irmã ao altar, onde se encontrava o futuro marido, muito nervoso, mas com um olhar brilhante e apaixonado.
Frederica sentira-se no meio de um sonho e fantasiava acordada ao imaginar-se a ela a linda e feliz no papel de noiva. Pensava em como tudo seria quando chegasse a sua vez, e imaginava o noivo – o seu amor- então secreto.
O seu olhar percorreu toda a capela e, lá bem ao fundo, estava ele, o dono do seu coração que logo começara a palpitar mais rapidamente. Quando os olhares se cruzaram, sorriram um para o outro, com a alegria desse instante. Uma lágrima de felicidade e encantamento espreitou-lhe dos olhos.
Quando desviou o olhar deparou-se com o seu primo, Jaime. Estava sentado e tão seguro de si, que ninguém diria que alguma doença habitava no seu corpo.
Sentiu um arrepio de medo e um aperto no coração, quando, sem saber porquê, inquietou-se e teve um mau pressentimento. Mas logo tentou tranquilizar-se e pensar que tinha sido o nervosismo que se apoderara de si. Frederica tentava mentalizar-se do contrário, mas sua grande amiga, Laura, reparou nesse seu comportamento, pois estava sentada junto ao seu primo Jaime. Tentou disfarçar esse facto, sorrindo-lhe e piscando-lhe o olho.
Pela segunda vez no mesmo dia, experimentara o mesmo sabor do medo, provando aquela sensação deveras esquisita e amarga. Sem saber exatamente porquê nem como, sentiu que tivesse sido empurrada por alguém ou algo invisível, que quase a obrigava a cambalear e tropeçar. Ao descer as escadas da pequena capela, viu-se obrigada a apoiar-se na sua irmã mais nova, pois seguiam juntas.
Tentava convencer-se de que tudo aquilo era culpa dos nervos relacionados com a agitação daquele momento especial. Sentiu-se um pouquinho mais leve perante essa desculpa, mas, lá no fundo, sabia que isso não era anormal. Já era conhecedora daquela sensação e sustentava esse medo desapropriado: o de vir a ser mais uma vítima dessa pesada desgraça…- uma tragédia que não queria sequer imaginar!
   
O dia maravilhoso passou-se com muita alegria e emoção. Fora uma união maravilhosa, pobre em riqueza mas rica em amor, algo único e valioso. A alegria da Nossa Senhora foi imensa: pareceu ver a retribuição da felicidade quando a sua irmã Júlia, feliz, lhe ofereceu o ramo de noiva.